(Eduardo Franco)
Um dos nomes mais comuns para sítios, fazendas ou chácaras no interior de Minas Gerais é o tal de “Olhos d’água”. Talvez seja por causa das nascentes que compõem o terreno, pela passagem de um riozinho ou a proximidade de uma lagoa. O certo é que os mais antigos, ao passarem por um local com esse nome, não demoram a contar alguma história antiga, emocionando-se, fazendo com que os seus olhos se tornem, pelas lágrimas, verdadeiros olhos d’água.
Cenas que trazem à memória aquela imagem clássica das noites em volta do fogão de lenha, aquecendo-se do frio, contando “causos”, falando sobre a vida e repassando aos mais novos as tradições e lendas locais.
Olhos d’água seria, inclusive, um bom título para novela, seriado, filme ou blog que se destinasse a discorrer sobre lembranças, saudades, dores, desespero e decepções. Relatos de dramas do cotidiano que, ao se deitarem no pretérito, transformariam-se em nascentes de lágrimas, sejam de sofrimento ou de pura nostalgia.
Para a comédia, o nome talvez não se encaixasse com a mesma perfeição, mesmo que a sensação de “chorar de rir” também possa formar, descontroladamente, alguns poços de lágrimas de felicidade, o choro constante estará sempre mais atrelado à dor e à saudade.
Na Saudade, os olhos d’água são conseqüências inevitáveis para a comprovação de um sentimento tão nosso, sem tradução para muitos idiomas, ela é sempre indecifrável e resolvida apenas com a devolução do ente amado, que foi tirado, assassinado, banido ou arrancado do convívio.
Quem dera estes olhos pudessem ser apenas como piscinas azuis, onde nosso corpo cansado pudesse procurar o banho, descanso, alivio das tensões e o esquecimento momentâneo dos problemas. O choro pode até trazer esta sensação, mas infelizmente, a partir dali, fica tatuado no coração, na alma, o histórico da dor, a evidência da falta, e as marcas, cada vez mais visíveis, da expressão de quem já mergulhou naqueles olhos d’água.
“Morena, dos olhos d'água,
tira os seus olhos do mar.
Vem ver que a vida ainda vale
o sorriso que eu tenho
pra lhe dar.”
(Chico Buarque de Hollanda)


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